
As colocações e críticas da vereadora Viviane Martins (PV) acenderam o alerta no grupo governista que está à frente do Executivo de Divinópolis do Tocantins há cerca de uma década e meia. O resultado das eleições estaduais, especialmente no segundo turno, somado às dificuldades administrativas enfrentadas pelo município, levanta questionamentos sobre o futuro político do grupo que apoia o prefeito Flávio Rodrigues, o Flavão (União Brasil).
Na disputa pelo Governo do Tocantins, o candidato Vicentinho Júnior obteve 2.531 votos válidos em Divinópolis, enquanto a professora Dorinha Seabra, apoiada pelo prefeito Flavão, recebeu 1.733 votos. A diferença foi de 798 votos favoráveis a Vicentinho.
O resultado merece uma análise cuidadosa por parte do grupo governista. Embora uma eleição estadual não determine automaticamente o comportamento do eleitor nas eleições municipais, a votação pode funcionar como um indicador político, especialmente quando o desempenho de um candidato apoiado pela gestão fica aquém das expectativas de seus próprios aliados.
A manifestação da vereadora Viviane Martins durante o segundo turno ganhou relevância justamente por partir de uma integrante do próprio grupo político. Suas críticas à atuação dos aliados e à falta de protagonismo na linha de frente da campanha evidenciaram um desconforto que merece ser considerado pelas lideranças governistas.
Mais do que uma divergência pontual, o episódio pode representar um sinal de que existem questões internas a serem discutidas. Quando integrantes de um mesmo grupo passam a manifestar publicamente insatisfações, é necessário avaliar se o problema está na articulação política, na condução administrativa ou na dificuldade de estabelecer diálogo com a população.
O resultado eleitoral também indica que o eleitorado não está inteiramente alinhado ao grupo que governa o município. A votação expressiva de Vicentinho Júnior, mesmo diante do apoio do prefeito a Dorinha Seabra, mostra que há espaço para outras forças políticas e que a disputa municipal de 2028 poderá ser mais acirrada do que alguns aliados imaginam.
Permanecer no comando de uma prefeitura por 16 anos consecutivos representa uma trajetória política significativa. Entretanto, o tempo de permanência no poder também impõe responsabilidades e amplia a cobrança da população por resultados concretos.
Em Divinópolis, questões como a crise fiscal, as dificuldades administrativas, os problemas relacionados ao transporte escolar e as apurações do Ministério Público sobre a situação do município integram o conjunto de desafios que a gestão precisa enfrentar.
É importante ressaltar que investigações e procedimentos de fiscalização não representam, por si só, comprovação de irregularidades ou responsabilidade definitiva dos envolvidos. Ainda assim, quando esses assuntos passam a ocupar o debate público, a administração precisa oferecer esclarecimentos, transparência e soluções efetivas.
A sucessão de dificuldades pode contribuir para o desgaste da imagem de um grupo político, sobretudo quando parte da população começa a questionar a capacidade de resposta do poder público.
O cenário não permite afirmar que o grupo governista esteja derrotado antecipadamente em 2028. Seria precipitado fazer essa leitura a partir de uma eleição estadual. No entanto, ignorar os sinais apresentados pelas urnas e as críticas vindas de dentro da própria base política seria um erro estratégico.
O sentimento de mudança pode ganhar força quando o eleitor percebe que problemas antigos continuam sem solução ou quando as expectativas criadas durante campanhas anteriores não se concretizam. Nesse contexto, a oposição encontra oportunidades para apresentar propostas, ampliar presença e conquistar a confiança de setores insatisfeitos do eleitorado.
Por outro lado, o grupo governista ainda tem a possibilidade de reorganizar as forças aliadas, rever estratégias, melhorar a interlocução com os moradores e enfrentar os problemas administrativos que afetam o cotidiano da cidade.
O alerta está dado. Cabe às lideranças governistas reunir os integrantes, ouvir as críticas, identificar possíveis erros e avaliar o que precisa ser corrigido. Não basta atribuir o resultado eleitoral a circunstâncias externas ou a disputas estaduais. É necessário compreender o que os números podem revelar sobre a relação entre o grupo político e a população.
A vereadora Viviane Martins trouxe para o debate uma questão que merece atenção: a necessidade de maior envolvimento, unidade e responsabilidade política. Quando uma voz do próprio grupo aponta dificuldades, o caminho mais produtivo é analisar os argumentos, em vez de simplesmente desconsiderá-los.
A eleição municipal de 2028 ainda está distante, mas a preparação política começa agora. Se o grupo que governa Divinópolis há 16 anos pretende continuar à frente da Prefeitura, precisará demonstrar capacidade de renovação, corrigir falhas e apresentar respostas convincentes às demandas da sociedade.
O eleitorado, por sua vez, terá a palavra final nas urnas. E uma das principais lições da democracia é que nenhum grupo político possui mandato permanente sobre a vontade popular.
Edsom Gilmar é repórtr, colunista, Editor-chefe e proprietário do Portal Caiapó Notícias.